A Alice, operadora paulista de planos de saúde para empresas, captou US$ 40 milhões em uma rodada Série D liderada pelo IFC, braço de investimentos do Grupo Banco Mundial. A healthtech anunciou o aporte nesta segunda-feira (19) e informou que prepara para novembro o lançamento de um assistente de inteligência artificial para toda a base de mais de 100 mil membros.
Também entraram na rodada o DEG, instituição de fomento da Alemanha, e o FinnFund, da Finlândia. Os atuais sócios Kaszek, ThornTree Capital e Canary completaram o cheque, segundo o Startups, e o Pipeline cita ainda a Next Billion Ventures. O valuation não foi divulgado.
É a primeira captação em equity da Alice desde a Série C de US$ 127 milhões, em 2021. A rodada chega em um ano em que o México passou o Brasil em venture capital: startups brasileiras captaram US$ 1,08 bilhão de janeiro a setembro, contra US$ 1,52 bilhão das mexicanas, segundo dados do Crunchbase citados pelo Startups.
Como a Alice usa IA no plano de saúde
A empresa afirma que a IA está em toda a operação. Desde o início do ano, segundo a Alice, 100% do código é produzido por engenheiros que orquestram agentes de IA. A companhia diz que a produtividade desse time mais que dobrou em 2026, sem incidentes atribuídos ao código gerado.
Para os médicos, um copiloto clínico transforma a conversa com o paciente em rascunho de consulta, que o profissional revisa e valida. A Alice diz que a ferramenta devolve cerca de metade do tempo gasto com documentação. Para os corretores, um sistema monta propostas a partir de documentos em qualquer formato e reduz em até 90% o tempo de precificação, segundo a empresa.
No atendimento, a operadora informou que o custo operacional caiu 18% e o tempo de espera, 12,5%, com a satisfação dos membros mantida em 4,8 de 5. A empresa diz caminhar para um custo administrativo perto de 2% da receita. A média do mercado, pela estimativa da própria Alice, fica entre 7,5% e 12%.
“Os modelos de IA estão disponíveis para qualquer empresa. O que não está disponível é o contexto”, disse o cofundador e CEO, André Florence, ao Startups. Em comunicado, ele afirmou: “Fizemos um esforço intencional e organizado para que a Alice se tornasse essa empresa”.
Alice AI deve chegar à base em novembro
O Alice AI fica dentro do aplicativo, consulta prontuário e histórico de cada membro e, quando necessário, encaminha para telemedicina, especialista ou hospital. Segundo o comunicado, a ferramenta já é usada por parte da base, segue protocolos clínicos próprios, não faz diagnóstico e passa por revisão semanal de uma equipe clínica.
O Pipeline informou que o lançamento de novembro começa com 10 mil usuários em fase de teste. A empresa também pretende abrir o assistente para quem não é cliente, como vitrine para atrair membros, e estuda uma versão com recursos pagos por assinatura, segundo o CEO.
“Um cuidado melhor não deveria significar custos mais altos”, afirmou Farid Fezoua, diretor de fundos de equity e venture capital do IFC, em comunicado. Segundo ele, a combinação de atenção primária e IA tem potencial para ampliar o acesso à saúde em mercados emergentes.
Números da empresa e saída do SoftBank
Os indicadores de eficiência foram divulgados pela própria Alice, sem metodologia detalhada. A companhia informou ao Pipeline que atingiu neste mês R$ 1,2 bilhão em receita recorrente anualizada, alta de cerca de 70% sobre 2025. A meta é chegar a R$ 2 bilhões em 2027.
O SoftBank, que liderou a Série C, ficou fora da nova rodada. O fundo japonês vendeu parte da participação para a Canary e deixou o conselho. “Eles estão em uma posição conhecida de desinvestimento no Brasil, e por isso eles decidiram não fazer o follow-on na Alice”, disse Florence ao Pipeline.
Florian Hagenbuch, cofundador e sócio da Canary, afirmou que este é o quarto investimento do fundo na empresa. Segundo Florence, todo o caixa gerado é reinvestido, com foco na Região Metropolitana de São Paulo, onde a Alice atende pequenas empresas.
Da Série C à aposta em IA
A Alice foi fundada em 2019 por André Florence, que passou por Goldman Sachs e Lazard, com Matheus Moraes e Guilherme Azevedo. Segundo o Pipeline, Moraes presidiu a 99 até 2018 e hoje é COO da healthtech, e Azevedo criou o Dr. Consulta.
Em dezembro de 2021, quando levantou US$ 127 milhões em rodada liderada pelo SoftBank, a empresa tinha cerca de 6 mil clientes, segundo o Startups e a Reuters. Em 2025, a Alice levantou US$ 22 milhões em notas, que agora se converteram em participação, de acordo com o Pipeline.
O dinheiro para IA em saúde também chegou a startups menores. Na semana passada, a mineira Matria captou US$ 6,5 milhões em rodada liderada pela Astella para levar agentes de IA a hospitais, como o ias.news noticiou.
